11 de setembro de 2010

A limitação das metodologias

Para quem gosta de etimologia, a palavra “metodologia” vem da junção de duas palavras gregas: methodos, que significa "modo para se chegar a um determinado fim ou objetivo" e logia, que significa estudo. Logo, no sentido mais lato, metodologia pode ser definida como o estudo dos métodos para se atingir um objetivo.

Especificamente no desenvolvimento de software, a seguinte citação ajuda a explicar:

“Metodologias impõem um processo disciplinado no desenvolvimento de software, com o objetivo de torná-lo mais previsível e eficiente. Elas fazem isso desenvolvendo um processo detalhado com uma forte ênfase em planejamento” (Martin Fowler)

Sem dúvida, a proposta das metodologias é muito boa. E, de fato, as metodologias que se tornaram populares são realmente boas, tendo sido concebidas por respeitáveis profissionais de desenvolvimento de software. A questão não é se as metodologias são boas, mas se a ênfase dada a elas é adequada.

Para entender melhor, pense em alguma atividade manual que você realize com alguma frequência. Pode ser montar um computador, lavar o carro, aparar a grama etc. Se você listar os procedimentos envolvidos nessa atividade, identificar padrões de ação que se repetem e encontrar os meios mais eficientes e seguros para realizar essas ações, você terá o suficiente para criar uma metodologia que otimize essa atividade. Parece fácil criar uma metodologia para esse tipo de atividade, certo?

Agora, suponha que você queira criar uma metodologia para uma atividade intelectual tal como criar músicas, pinturas ou esculturas*. Concorda que nenhuma metodologia garantiria a produção de belas músicas, pinturas ou esculturas? Você provavelmente concorda porque sabe que quando se trata de um trabalho intelectual, o resultado final não depende da forma como o trabalho foi estruturado, planejado ou conduzido, mas do talento de quem o executa.

Ora, o que é o desenvolvimento de software – um atividade manual ou intelectual? Sendo uma atividade intelectual, há uma barreira que as metodologias não conseguem transpor: a necessidade de pessoas talentosas para executar o trabalho.

“O problema, na maioria das vezes, é que metodologia se opôs à noção que as pessoas são fatores de primeira ordem no sucesso de um projeto.” (Martin Fowler)

Não compreender que desenvolver software é um trabalho predominantemente intelectual é a causa de sérios equívocos na indústria de software, entre eles, tratar software como algo determinístico, que pode ser produzido em série, como numa fábrica. Sob esse olhar equivocado, basta uma boa metodologia e uma equipe obediente disciplinada que o resultado final será maravilhoso. "As pessoas não são importantes, mas sim as suas funções. Mais importante ainda é o processo. Se alguém deixa a equipe, basta substituí-lo por outra pessoa que exerça a mesma função e a engrenagem da fábrica continuará funcionando, afinal, ninguém é insubstituível."

Isso pode soar correto na teoria, mas na prática, resulta em softwares que até atendem aos requisitos funcionais, mas falham em atender aos requisitos não funcionais como facilidade de uso, rapidez e manutenibilidade.

“Não há pesquisas e estudos suficientes sobre como se organiza o trabalho intelectual ou criativo. Na falta desse conhecimento, a empresa aplica para intelectuais as mesmas regras criadas para os trabalhadores manuais [...] A conseqüência é que a criatividade fica reprimida e diminuída.” (Domenico de Masi)

Se você quer fazer bom software, tenha uma equipe talentosa e dê a ela boas condições de trabalho. Metodologias serão de ajuda, desde que sirvam como um plano geral, constantemente adaptado ao tipo e às circunstâncias de cada projeto.

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* ^ Para efeito de desambiguação, estou usando a seguinte definição para atividade/trabalho intelectual: "Trabalho intelectual é o que envolve a manifestação do intelecto, em todos ou qualquer dos seus sentidos: intuitivo, operativo ou compreendente, ou seja, a ação criativa ou recriativa, de ordem física e/ou mental, concebida a partir da compreensão abstrata do objeto." (LIMA, Francisco Meton Marques de - Âmbito Jurídico)

Crédito da foto: National Geographic (elefante pintor do Thailand Elephant Conservation Center)

Referências:

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